
Sancara Mutumula fecha portas ao agenciamento de artistas após anos no topo

Ao explicar a origem da sua ligação ao meio artístico, Sancara contou que tudo começou através dos negócios de importação de roupa da China, actividade que desenvolveu por mais de 17 anos e que lhe permitiu abrir lojas em Maputo e noutras províncias. Segundo afirmou, vários artistas frequentavam os seus estabelecimentos em busca de roupas para programas televisivos e actuações públicas, criando-se assim amizades e relações de confiança. O empresário recordou que o incentivo decisivo para entrar na gestão musical surgiu através de um músico, que lhe disse: “Tu podes ficar com o lugar do Bang, por que não agências essas coisas todas?”. A partir daí, Sancara começou a investir directamente em músicos, tendo financiado um dos primeiros videoclipes de Mito Chocolatinho e acompanhado de perto os primeiros passos de Assane Jr. O antigo manager admitiu ainda que os investimentos exigiam elevados custos com transporte, videoclipes, alimentação, vestuário, logística e promoção, factores que muitos artistas, segundo ele, nem sempre compreendiam completamente.
Ao longo da entrevista, Sancara abordou pela primeira vez de forma mais aberta as razões que contribuíram para o fim gradual da ligação entre a sua estrutura e vários artistas. Segundo explicou, os conflitos surgiam frequentemente quando começavam a entrar valores monetários mais elevados provenientes de espectáculos, contratos e cachets. O empresário afirmou que muitos músicos passaram a questionar as percentagens acordadas inicialmente, sem considerarem os investimentos feitos pela equipa de gestão nos períodos mais difíceis das suas carreiras. “Eu acho que foi ganância”, declarou Sancara, acrescentando que parte dos problemas também resultava de influências externas exercidas por pessoas próximas dos artistas. Ainda assim, garantiu não guardar ressentimentos, afirmando que considera vários músicos como membros da sua própria família. O empresário revelou igualmente que mantém uma relação particularmente próxima com Mito Chocolatinho, artista que descreveu como “um filho”, reconhecendo nele um dos músicos mais gratos e respeitadores com quem trabalhou ao longo da carreira.
A entrevista mostrou também um lado mais humano da relação entre empresários e músicos no contexto da indústria moçambicana. Sancara explicou que muitos artistas acabam cercados por pessoas interessadas apenas na fama e no dinheiro, situação que frequentemente gera conflitos entre agentes e músicos em ascensão. Segundo relatou, promotores de espectáculos tentavam por vezes negociar directamente com os artistas para evitar valores definidos pela gestão, criando tensões internas e dificuldades de controlo profissional. Apesar disso, o empresário fez questão de afirmar que mantém boas relações com quase todos os artistas ligados à antiga Sankara Entertainments, incluindo Simone, Bibas, Assane Jr e Melony. Em relação à cantora Melony, Sancara revelou que a artista enfrentava desafios ligados à idade e aos estudos durante o período em que fazia parte da estrutura, mas garantiu que continua a considerá-la como “filha”, apesar da distância actual e da redução do contacto.
Mesmo afastado da gestão musical, Sancara assegura que continua activo no mundo empresarial e na promoção de eventos nacionais. Sancara manager afirmou que actualmente dedica mais atenção à família, aos negócios internacionais e às actividades ligadas à importação de produtos a partir de países como China, Dubai, África do Sul e Zâmbia. Apesar de continuar a receber pedidos de jovens talentos interessados em ser agenciados, garantiu que não pensa voltar ao modelo tradicional de gestão artística. “Por mim, eu digo que não iria voltar a agenciar artistas”, afirmou durante a conversa. No final da entrevista, Sancara elogiou o crescimento da música moçambicana e destacou nomes como Twenty Fingers, Mr. Bow e Hernâni entre os artistas que mais acompanha actualmente, defendendo que o país atravessa um dos momentos mais fortes da sua produção musical contemporânea.
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Edição e Verificação Editorial
Na perspetiva da Voz do Índico, as declarações de Sancara Mutumula revelam uma dimensão raramente exposta da indústria musical moçambicana: os conflitos silenciosos entre investimento, fama e lealdade no universo artístico nacional. O testemunho mostra como muitos projectos musicais em Moçambique nasceram sem estruturas empresariais sólidas, dependendo fortemente de relações pessoais e de empresários dispostos a assumir elevados riscos financeiros. A entrevista também ajuda a compreender a fragilidade contratual que ainda caracteriza parte do entretenimento moçambicano, onde o crescimento rápido da popularidade frequentemente gera rupturas entre artistas e agentes. Ao mesmo tempo, Sancara posiciona-se como uma figura que participou directamente na construção de várias carreiras hoje reconhecidas nacionalmente. Mesmo afastado da gestão artística, o seu percurso continua associado a uma fase importante da modernização da música urbana moçambicana e da profissionalização gradual do sector cultural.