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Sociedade

Profissionais de saúde vêem avanços nas negociações, mas greve continua sob pressão

Os profissionais de saúde em greve desde Janeiro anunciaram esta semana sinais de avanço nas negociações com o Governo, alimentando expectativa de possível entendimento após quase cinco meses de tensão no Sistema Nacional de Saúde. A Associação dos Profissionais de Saúde Unidos e Solidários de Moçambique (APSUSM) confirmou a criação de uma equipa conjunta de monitoria destinada a avaliar directamente as necessidades das unidades sanitárias no país. O anúncio foi feito na cidade da Beira pelo delegado provincial da associação em Sofala, Joel Farias, que classificou o actual momento como um “avanço importante” no processo negocial. Apesar disso, os profissionais continuam a exigir respostas concretas, rapidez e maior seriedade do Executivo.
Publicado em 07/05/2026
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Profissionais de saúde vêem avanços nas negociações, mas greve continua sob pressão
Análise Detalhada

Segundo a APSUSM, a nova equipa integra representantes da associação e diferentes departamentos do Sistema Nacional de Saúde, incluindo áreas ligadas à assistência médica, medicamentos e recursos humanos. Os trabalhos de monitoria já arrancaram em Maputo e na província de Manica, onde membros do Governo acompanharam directamente as visitas às unidades sanitárias. A associação considera positiva a abertura para trabalho conjunto, mas alerta que os problemas continuam graves em vários hospitais e centros de saúde do país. Entre as principais preocupações estão falta de medicamentos, escassez de material médico-cirúrgico, ausência de alimentos hospitalares e atraso no pagamento de benefícios aos profissionais.

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“Estamos prestes a atingir os acordos”, declarou Joel Farias durante a conferência de imprensa na Beira, defendendo que os entendimentos em curso poderão beneficiar directamente os utentes e melhorar condições de trabalho no sector. O responsável alertou, contudo, que a APSUSM não aceitará continuar a negociar com equipas governamentais consideradas “apáticas” ou sem capacidade de apresentar soluções concretas. “Nós não vamos aceitar negociar com pessoas que achamos que eles não estão sérios nesse trabalho”, afirmou o dirigente sindical. A associação aproveitou ainda para declarar “tolerância zero” contra cobranças ilícitas praticadas por alguns profissionais dentro das unidades sanitárias.

A greve dos profissionais de saúde começou oficialmente a 16 de Janeiro e tornou-se uma das maiores crises recentes do sector sanitário nacional. A APSUSM, que afirma representar cerca de 65 mil profissionais, exige melhores condições de trabalho, pagamento integral do 13.º salário de 2025, regularização de subsídios e fornecimento contínuo de medicamentos e equipamentos hospitalares. Em Março, a associação chegou a denunciar mais de 1.800 mortes alegadamente relacionadas com falta de medicamentos e equipamentos nas unidades sanitárias, acusações rejeitadas pelas autoridades.

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Apesar do ambiente mais conciliador nas negociações, o futuro da greve continua incerto enquanto não existirem compromissos escritos, cronogramas claros e medidas visíveis nas unidades sanitárias. Analistas alertam que a crise expôs fragilidades profundas do sistema nacional de saúde, incluindo dependência de financiamento externo, carência de recursos básicos e desgaste dos profissionais. O desfecho das negociações poderá influenciar não apenas estabilidade laboral no sector, mas também confiança pública na capacidade do Estado responder às necessidades básicas da população. Para milhares de moçambicanos dependentes dos hospitais públicos, o principal receio continua a ser o mesmo: chegar a uma unidade sanitária e não encontrar medicamentos, equipamentos ou assistência adequada.

Para detalhes minuciosos, consulte a fonte oficial

Fonte: Ao Minuto
Análise Exclusiva Voz do Índico

Na perspetiva da Voz do Índico, os sinais de avanço nas negociações representam um alívio parcial num sector que há meses opera sob forte tensão e desgaste institucional. Contudo, o problema da saúde pública em Moçambique já ultrapassou a dimensão salarial ou laboral. A crise revelou fragilidades estruturais profundas que afectam directamente a qualidade do atendimento nas unidades sanitárias. Quando profissionais afirmam que hospitais enfrentam falta de luvas, medicamentos e equipamentos básicos, o debate deixa de ser apenas sindical e transforma-se numa questão de segurança humana. O mais preocupante é que muitos destes problemas persistem há anos e tornam-se mais visíveis apenas durante períodos de greve. Em vários países africanos, sistemas de saúde fragilizados acabaram por entrar em colapso gradual devido à falta de investimento contínuo, fuga de profissionais qualificados e dependência de ajuda externa. O caso moçambicano mostra que melhorar salários é importante, mas insuficiente sem reforma estrutural do sector. O verdadeiro desafio será reconstruir confiança entre profissionais, Governo e população num sistema de saúde que continua sob enorme pressão.

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