
Mais de 11 mil deslocados após nova vaga de ataques em Cabo Delgado

A ECHO refere que os ataques ocorreram sobretudo em Ancuabe, mas afectaram igualmente o distrito vizinho de Montepuez, para onde parte da população procurou refúgio. No mesmo período, confrontos entre grupos extremistas e forças ruandesas e moçambicanas em Mocímboa da Praia provocaram mortos ainda não oficialmente contabilizados. A agência europeia afirma que o ambiente de segurança continua extremamente instável e dificulta operações humanitárias em várias zonas de Cabo Delgado. O acesso de organizações de apoio às populações afectadas permanece condicionado devido aos confrontos armados e à ameaça de engenhos explosivos improvisados. A ECHO alerta ainda que muitas famílias continuam a deslocar-se repetidamente entre diferentes localidades à procura de segurança.
Os novos deslocamentos surgem numa altura em que Moçambique já enfrenta uma das maiores crises humanitárias da África Subsaariana relacionadas com conflitos e desastres naturais. Segundo o “Relatório Global sobre Deslocações Internas 2026”, divulgado pelo Centro de Monitorização das Deslocações Internas (IDMC), Moçambique registou 669 mil deslocações em 2025 devido a catástrofes naturais. O relatório destaca os impactos dos ciclones Dikeledi e Chido, que provocaram centenas de milhares de deslocações em Nampula e noutras regiões do país. Paralelamente, o conflito armado em Cabo Delgado gerou mais 339 mil deslocações internas apenas no último ano. Os dados reforçam a dimensão humanitária da crise enfrentada pelo país.
A organização ACLED, especializada na monitorização de conflitos armados, registou 15 incidentes violentos em Cabo Delgado entre 20 de Abril e 03 de Maio, sete deles ligados a extremistas associados ao Estado Islâmico. Segundo o relatório, esses ataques provocaram pelo menos 15 mortos no período analisado. Desde o início da insurgência armada em Outubro de 2017, a ACLED contabiliza mais de 6.500 mortos relacionados com o conflito em Cabo Delgado. O grupo afirma que a maioria dos episódios violentos registados na província envolve elementos ligados ao Estado Islâmico Moçambique. A violência continua a afectar directamente civis, actividades económicas e operações humanitárias no Norte do país.
O agravamento da insegurança em Cabo Delgado poderá aumentar pressão internacional sobre Moçambique e os parceiros militares envolvidos no combate aos grupos extremistas. Especialistas alertam que os deslocamentos contínuos dificultam reconstrução económica, acesso à educação, assistência sanitária e retorno das populações às zonas afectadas. A instabilidade também continua a representar ameaça estratégica aos projectos de gás natural na região da Bacia do Rovuma. Organizações humanitárias defendem reforço urgente do apoio alimentar, sanitário e de protecção às famílias deslocadas. O conflito permanece como um dos maiores desafios de segurança e estabilidade para Moçambique e para a África Austral.
Para detalhes minuciosos, consulte a fonte oficial
Na perspetiva da Voz do Índico, os novos deslocamentos confirmam que Cabo Delgado continua longe de alcançar estabilidade duradoura, apesar das operações militares em curso há vários anos. A persistência dos ataques demonstra que os grupos armados mantêm capacidade de mobilidade e impacto sobre comunidades civis vulneráveis. O mais preocupante é que a crise já ultrapassou a dimensão militar, transformando-se numa emergência humanitária permanente marcada por deslocamentos sucessivos, destruição social e fragilidade económica. O prolongamento da insegurança ameaça não apenas Cabo Delgado, mas também os interesses energéticos estratégicos de Moçambique e a estabilidade regional da África Austral.