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Segurança

Bispo alerta para risco de “califado” e acusa silêncio perante terror em Cabo Delgado

O bispo de Pemba, António Juliasse, afirmou que os grupos armados que actuam em Cabo Delgado demonstram intenção de estabelecer um “califado” na região, alertando para o agravamento da radicalização no norte de Moçambique e criticando o silêncio das autoridades perante o avanço da violência. As declarações foram divulgadas esta terça-feira através da fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), numa altura em que os ataques insurgentes continuam a provocar mortes, deslocamentos e destruição de infraestruturas civis e religiosas. O responsável religioso defendeu diálogo como principal caminho para travar o alastramento do conflito, afastando uma solução exclusivamente militar.
Publicado às 01:24 • 27/05/2026
Bispo alerta para risco de “califado” e acusa silêncio perante terror em Cabo Delgado
Resumo da Notícia

Segundo António Juliasse, os sinais da intenção extremista “existem” e são transmitidos directamente pelas próprias células armadas durante ataques e raptos de civis. “Eles falam de califado. Quando encontram pessoas, quando capturam, raptam pessoas, eles fazem esse discurso de que já estão aqui com o califado estabelecido”, afirmou o bispo de Pemba. O conflito em Cabo Delgado decorre desde Outubro de 2017 e já provocou mais de 6.500 mortos, além de milhares de deslocados internos, segundo organizações internacionais e dados da ACLED. Nas últimas duas semanas, a província registou 11 episódios violentos, 10 dos quais associados a extremistas ligados ao Estado Islâmico.

O líder religioso criticou igualmente a postura das autoridades moçambicanas, afirmando não compreender a dificuldade do Estado em orientar a população e enfrentar publicamente o problema. “Este é um assunto que deve preocupar as forças que governam o país”, declarou, acrescentando que o silêncio institucional “cria uma grande confusão”. António Juliasse lamentou ainda o crescimento do discurso de ódio e a deterioração da convivência religiosa em Cabo Delgado, afirmando que relações antes pacíficas entre cristãos e muçulmanos começaram a deteriorar-se devido ao ambiente de medo e radicalização. O bispo defendeu que Moçambique deve procurar “o caminho do diálogo” para terminar a guerra e impedir maior fragmentação social.

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As declarações surgem semanas depois de insurgentes destruírem completamente a histórica paróquia de São Luís de Monfort, construída em 1946, na aldeia de Meza, distrito de Ancuabe. Segundo o próprio bispo, o ataque incluiu profanação de locais sagrados, destruição de infraestruturas e rapto de civis, numa “violência horrível” que “provoca muita dor”. A Diocese de Pemba afirma que mais de 117 igrejas e capelas foram destruídas desde o início da insurgência armada, enquanto pelo menos 300 católicos terão sido mortos, muitos por decapitação.

O alerta do bispo reforça preocupações crescentes sobre transformação do conflito de Cabo Delgado numa ameaça regional mais profunda, marcada por radicalização ideológica, crise humanitária e fragilidade institucional. Apesar da presença de forças moçambicanas, ruandesas e da SADC, os ataques continuam activos em vários distritos da província, incluindo Macomia, Ancuabe e Mocímboa da Praia. Organizações humanitárias e líderes religiosos continuam a pedir maior coordenação política, apoio às populações deslocadas e estratégias que ultrapassem apenas resposta militar.

Para detalhes minuciosos, consulte a fonte oficial

Fonte: Deutsche Welle: DW.com - Português para África

Edição e Verificação Editorial

Equipe Editorial Voz do ÍndicoIA + Revisão Humana
Análise Exclusiva Voz do Índico

Na perspetiva da Voz do Índico, as declarações de António Juliasse representam um dos alertas mais fortes feitos por uma figura religiosa moçambicana desde o início da insurgência em Cabo Delgado. O mais sensível não é apenas a referência ao “califado”, mas a percepção de que grupos extremistas estão a tentar consolidar influência ideológica e psicológica sobre comunidades locais. O conflito deixou de ser apenas militar e passou também a envolver identidade religiosa, medo social e erosão da convivência comunitária. Ao criticar o silêncio das autoridades, o bispo expõe igualmente um problema político: a dificuldade do Estado em comunicar claramente a dimensão da ameaça. A continuidade dos ataques, mesmo após anos de operações militares, mostra que Cabo Delgado permanece como um dos maiores desafios de segurança e estabilidade para Moçambique e para toda a região da SADC.

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