
Bispo alerta para risco de “califado” e acusa silêncio perante terror em Cabo Delgado

Segundo António Juliasse, os sinais da intenção extremista “existem” e são transmitidos directamente pelas próprias células armadas durante ataques e raptos de civis. “Eles falam de califado. Quando encontram pessoas, quando capturam, raptam pessoas, eles fazem esse discurso de que já estão aqui com o califado estabelecido”, afirmou o bispo de Pemba. O conflito em Cabo Delgado decorre desde Outubro de 2017 e já provocou mais de 6.500 mortos, além de milhares de deslocados internos, segundo organizações internacionais e dados da ACLED. Nas últimas duas semanas, a província registou 11 episódios violentos, 10 dos quais associados a extremistas ligados ao Estado Islâmico.
O líder religioso criticou igualmente a postura das autoridades moçambicanas, afirmando não compreender a dificuldade do Estado em orientar a população e enfrentar publicamente o problema. “Este é um assunto que deve preocupar as forças que governam o país”, declarou, acrescentando que o silêncio institucional “cria uma grande confusão”. António Juliasse lamentou ainda o crescimento do discurso de ódio e a deterioração da convivência religiosa em Cabo Delgado, afirmando que relações antes pacíficas entre cristãos e muçulmanos começaram a deteriorar-se devido ao ambiente de medo e radicalização. O bispo defendeu que Moçambique deve procurar “o caminho do diálogo” para terminar a guerra e impedir maior fragmentação social.
As declarações surgem semanas depois de insurgentes destruírem completamente a histórica paróquia de São Luís de Monfort, construída em 1946, na aldeia de Meza, distrito de Ancuabe. Segundo o próprio bispo, o ataque incluiu profanação de locais sagrados, destruição de infraestruturas e rapto de civis, numa “violência horrível” que “provoca muita dor”. A Diocese de Pemba afirma que mais de 117 igrejas e capelas foram destruídas desde o início da insurgência armada, enquanto pelo menos 300 católicos terão sido mortos, muitos por decapitação.
O alerta do bispo reforça preocupações crescentes sobre transformação do conflito de Cabo Delgado numa ameaça regional mais profunda, marcada por radicalização ideológica, crise humanitária e fragilidade institucional. Apesar da presença de forças moçambicanas, ruandesas e da SADC, os ataques continuam activos em vários distritos da província, incluindo Macomia, Ancuabe e Mocímboa da Praia. Organizações humanitárias e líderes religiosos continuam a pedir maior coordenação política, apoio às populações deslocadas e estratégias que ultrapassem apenas resposta militar.
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Edição e Verificação Editorial
Na perspetiva da Voz do Índico, as declarações de António Juliasse representam um dos alertas mais fortes feitos por uma figura religiosa moçambicana desde o início da insurgência em Cabo Delgado. O mais sensível não é apenas a referência ao “califado”, mas a percepção de que grupos extremistas estão a tentar consolidar influência ideológica e psicológica sobre comunidades locais. O conflito deixou de ser apenas militar e passou também a envolver identidade religiosa, medo social e erosão da convivência comunitária. Ao criticar o silêncio das autoridades, o bispo expõe igualmente um problema político: a dificuldade do Estado em comunicar claramente a dimensão da ameaça. A continuidade dos ataques, mesmo após anos de operações militares, mostra que Cabo Delgado permanece como um dos maiores desafios de segurança e estabilidade para Moçambique e para toda a região da SADC.