
Gasolineiras acusam Banco de Moçambique de esconder verdadeira crise cambial

Segundo Rogério Zandamela, os bancos comerciais continuam a financiar importações e a emitir garantias bancárias para aquisição de combustíveis no exterior. O governador afirmou que “não temos um problema de emissão de garantias” para empresas com perfil financeiro adequado, alegando que algumas gasolineiras estão excluídas porque “estão quebradas, estão falidas, não têm meticais”. Contudo, operadores do sector consideram que o discurso do banco central ignora dificuldades reais ligadas à disponibilidade efectiva de moeda estrangeira e ao agravamento dos custos internacionais dos combustíveis, acusando as autoridades monetárias de tentarem transmitir imagem de estabilidade que, segundo defendem, não corresponde totalmente ao cenário vivido no mercado.
A tensão aumentou depois de o semanário Canal de Moçambique avançar que o Governo poderá preparar duas novas revisões dos preços dos combustíveis para Junho e Julho. A publicação refere que a factura internacional dos combustíveis disparou nos últimos meses e que garantias bancárias passaram a cobrir períodos muito menores do que anteriormente. Embora o Governo tenha reconhecido recentemente que a situação ainda não está totalmente normalizada, insiste que a pressão sobre os postos de abastecimento reduziu nas últimas semanas. O porta-voz do Conselho de Ministros, Inocêncio Impissa, admitiu igualmente que a guerra no Médio Oriente continua a representar risco para estabilidade dos preços no mercado nacional.
O centro desta disputa não está apenas no combustível, mas também na confiança sobre o estado real da economia moçambicana e do mercado cambial. Quando operadores privados acusam o banco central de “camuflar” dificuldades relacionadas com divisas, o debate deixa de ser apenas técnico e passa a tocar credibilidade institucional. Num país altamente dependente de importações energéticas, qualquer percepção de fragilidade no acesso a moeda estrangeira pode aumentar pressão sobre preços, inflação e confiança empresarial. A crise dos combustíveis acabou assim por expor tensões mais profundas entre autoridades monetárias, operadores privados e capacidade financeira do mercado nacional.
Nos próximos meses, a evolução do preço internacional do petróleo, a estabilidade geopolítica no Médio Oriente e a disponibilidade de divisas continuarão a influenciar directamente o abastecimento em Moçambique. O Governo procura evitar agravamento da crise e garantir maior normalização nos postos, mas o risco de novas subidas permanece elevado. Ao mesmo tempo, cresce a expectativa sobre eventuais medidas de fiscalização, apoio financeiro ou reorganização do sector, numa altura em que consumidores e transportadores já enfrentam custos operacionais cada vez mais elevados.
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Edição e Verificação Editorial
Na perspetiva da Voz do Índico, o elemento mais sensível desta crise deixou de ser apenas a falta de combustível e passou a ser a disputa pública sobre quem está a dizer a verdade. Quando gasolineiras acusam o Banco de Moçambique de esconder limitações do mercado cambial, instala-se uma crise de confiança que pode ter efeitos económicos tão graves quanto a própria escassez. O discurso de Rogério Zandamela tenta proteger percepção de estabilidade financeira, mas as dificuldades sentidas pelos operadores mostram que parte do mercado continua sob forte pressão. Em economias dependentes de importações, confiança institucional e previsibilidade cambial são factores críticos. Se o conflito entre regulador e operadores continuar a escalar, Moçambique poderá enfrentar não apenas inflação energética, mas também aumento da insegurança económica e maior desconfiança empresarial.