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Internacional

Elísio Macamo alerta: explicações fáceis sobre xenofobia escondem o verdadeiro problema

O sociólogo Elísio Macamo defende que a violência contra imigrantes na África do Sul, que também afecta moçambicanos, exige uma análise mais profunda e menos emocional. Para o académico, o debate público tem sido dominado por leituras simplistas que não ajudam a compreender a complexidade do fenómeno. “A reação mais imediata tende a oscilar entre dois polos que acabam por empobrecer a compreensão do problema”, afirmou. A actual onda de ataques revela tensões estruturais que vão além da simples rejeição ao estrangeiro. O tema, segundo Macamo, deve ser tratado com rigor analítico.
Publicado em 03/05/2026
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Elísio Macamo alerta: explicações fáceis sobre xenofobia escondem o verdadeiro problema
Análise Detalhada

Segundo o sociólogo, duas abordagens dominam o debate: o “populismo do óbvio” e o “tecnocratismo da impossibilidade”. “O populismo do óbvio tem a vantagem de clareza moral, mas paga por isso com a simplificação analítica”, explicou. Já o tecnocratismo, acrescenta, “reconhece a complexidade, mas corre o risco de paralisar a ação”. Ambas as posições, embora opostas, limitam a compreensão do problema. Uma reduz o fenómeno a causas internas, enquanto a outra o transforma numa inevitabilidade. O resultado é um debate que não produz soluções.

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Macamo sublinha que a questão central não é apenas xenofobia ou racismo, mas um conflito mais profundo. “O que está em jogo é uma disputa sobre legitimidade: quem tem direito a trabalhar, a viver e a beneficiar-se dos recursos disponíveis”, afirmou. Segundo o académico, quando essas regras não são claras ou são percebidas como injustas, surgem tensões sociais. “O estrangeiro torna-se a figura visível de uma desordem que tem causas mais profundas”, acrescentou. Esta leitura permite compreender o fenómeno sem legitimar a violência. A análise aponta para causas estruturais.

O sociólogo recorda ainda que a mobilidade laboral na África Austral é histórica e não pode ser explicada apenas pela pobreza. “Mesmo Moçambique economicamente mais robusto continuaria a ter cidadãos a trabalhar na África do Sul”, destacou. Para Macamo, a vulnerabilidade dos migrantes depende tanto da origem como das condições do destino. Factores como desemprego, desigualdade e fragilidade institucional na África do Sul agravam o problema. O contexto regional reforça essa dinâmica. A complexidade exige respostas integradas.

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Face a este cenário, Macamo defende uma abordagem equilibrada e mais responsável. “Reconhecer condições não é o mesmo que abdicar da responsabilidade”, sublinhou. O sociólogo apela a uma discussão pública mais madura, que vá além da culpa fácil ou da resignação. “A sociologia não serve para dizer que nada pode ser feito, mas para indicar onde e como agir”, concluiu. A clareza conceptual é vista como ponto de partida para soluções eficazes. O combate ao fenómeno exige acção informada e coordenada.

Para detalhes minuciosos, consulte a fonte oficial

Fonte: Redação Voz do Índico
Análise Exclusiva Voz do Índico
Na perspetiva da Voz do Índico, a intervenção de Elísio Macamo eleva o debate sobre xenofobia para um nível raramente observado no espaço público moçambicano. Ao introduzir o conceito de “conflito de legitimidade distributiva”, o sociólogo desmonta narrativas simplistas e aponta para uma realidade mais desconfortável: a disputa por recursos e oportunidades em contextos de escassez. Na região da SADC, onde a mobilidade laboral é estrutural, esta leitura é particularmente relevante. Países como Moçambique enfrentam o desafio de não reduzir o problema a factores internos, mas também não ignorar as tensões nos países de destino. A longo prazo, soluções eficazes exigirão cooperação regional, políticas de integração e maior clareza institucional. Ignorar esta complexidade é perpetuar o ciclo de violência.
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