
Edson Cortez aponta governações de Guebuza e Nyusi como travão ao desenvolvimento

Ao analisar o legado dos dois antigos Presidentes, o responsável do CIP apontou a corrupção, os raptos, o modelo económico excessivamente dependente da exploração de recursos naturais e determinadas parcerias consideradas lesivas para os interesses nacionais como alguns dos principais factores que contribuíram para a deterioração do ambiente económico e institucional. Segundo a sua avaliação, a materialização desses problemas atingiu o ponto mais crítico com o escândalo das dívidas ocultas, caso que provocou uma das maiores crises financeiras da história recente de Moçambique e teve repercussões profundas sobre a confiança dos parceiros internacionais e sobre a estabilidade macroeconómica do país. Cortez considera que, durante esse período, perdeu-se uma oportunidade histórica para implementar reformas estruturais capazes de diversificar a economia, fortalecer as instituições públicas e criar bases mais sólidas para um crescimento inclusivo e sustentável.
A análise apresentada pelo activista ultrapassa a dimensão interna e toca também a posição de Moçambique na região da SADC. A fragilidade institucional e os desafios económicos acumulados ao longo dos últimos anos tiveram impacto na capacidade do país atrair investimento produtivo, aumentar a competitividade e consolidar o seu papel como uma das economias emergentes da África Austral. A dependência excessiva de sectores extractivos e a limitada diversificação da actividade económica são apontadas há vários anos por organizações da sociedade civil como factores de vulnerabilidade. Neste contexto, o debate sobre governação e reformas ganha relevância não apenas para o futuro político nacional, mas também para a forma como Moçambique se posiciona perante os seus parceiros regionais e internacionais.
Relativamente ao actual Presidente da República, Daniel Chapo, Edson Cortez reconhece que este assumiu funções num ambiente particularmente difícil, marcado por forte contestação política e social. O director do CIP entende que a nova liderança enfrenta o desafio de responder às consequências do período pós-eleitoral e de restaurar a confiança entre o Estado e os cidadãos. Na sua perspectiva, uma das prioridades deve passar pelo tratamento das consequências da violência registada após as eleições, assunto que continua presente no debate público nacional. A expectativa de vários sectores da sociedade civil é que o actual ciclo político possa abrir espaço para reformas institucionais mais profundas e para uma relação mais transparente entre governantes e governados.
O posicionamento de Edson Cortez reabre uma discussão que tem acompanhado Moçambique nos últimos anos: a avaliação do legado dos sucessivos governos e a capacidade das instituições nacionais corrigirem problemas estruturais acumulados ao longo do tempo. Independentemente das interpretações políticas, as declarações reforçam a importância do debate sobre governação, responsabilização e desenvolvimento económico. O futuro do país dependerá, em grande medida, da capacidade das lideranças actuais transformarem críticas e diagnósticos em reformas concretas que permitam fortalecer as instituições, estimular a produção nacional, combater práticas ilícitas e restaurar a confiança dos cidadãos no Estado.
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Edição e Verificação Editorial
As declarações de Edson Cortez não devem ser vistas apenas como uma crítica dirigida a antigos governantes. Elas representam, acima de tudo, uma chamada de atenção para problemas estruturais que continuam a afectar Moçambique independentemente de quem ocupa o poder. Quando um dos mais conhecidos activistas de integridade pública do país afirma que dois ciclos presidenciais contribuíram para "enterrar" o país, a discussão deixa de ser exclusivamente política e passa a ser institucional.
O aspecto mais relevante desta intervenção está na identificação de fenómenos que persistem há vários anos: corrupção, fragilidade das instituições, dependência excessiva dos recursos naturais e insuficiente diversificação económica. Estes factores não apenas condicionam o crescimento económico, mas também limitam a capacidade do Estado responder às necessidades da população.
Para Moçambique, a principal lição é que o crescimento baseado apenas na exploração de recursos naturais não garante desenvolvimento sustentável. Sem instituições fortes, transparência e capacidade de fiscalização, grandes investimentos podem coexistir com pobreza, desigualdade e fraca prestação de serviços públicos.
O actual Governo enfrenta igualmente uma oportunidade histórica. Herdou um contexto difícil, mas também possui a possibilidade de demonstrar uma ruptura com práticas que têm sido criticadas por vários sectores da sociedade. Reformas no combate à corrupção, fortalecimento das instituições de controlo e promoção da produção nacional podem tornar-se instrumentos decisivos para recuperar a confiança dos cidadãos.
As instituições moçambicanas têm um papel central neste processo. O combate à corrupção não pode depender apenas de discursos políticos. Exige tribunais fortes, órgãos de fiscalização independentes e mecanismos eficazes de responsabilização. Sem isso, os problemas identificados por Edson Cortez poderão continuar a repetir-se em futuros ciclos governativos.
O verdadeiro desafio para Moçambique não é apenas avaliar o passado, mas garantir que os erros apontados não se transformem numa característica permanente do futuro nacional.