
Civis denunciam abusos das FDS e violência dos “shebabs” em Cabo Delgado

Segundo relatos recolhidos pela RFI, pescadores acusam militares moçambicanos de dispararem contra civis no mar ao largo de Mocímboa da Praia. O pescador Assamo Cheila afirmou que, depois de os soldados verificarem que “não havia armas nos barcos”, começaram a abrir fogo contra os pescadores, perseguindo-os “até matá-los a todos”, sobrevivendo apenas um homem.
Além das denúncias no mar, moradores de Mocímboa da Praia relatam episódios de violência durante operações de controlo nas zonas urbanas. Uma residente identificada como Fariza contou à reportagem que testemunhou militares a espancarem violentamente um pescador que regressava da praia sem documentos de identificação, acrescentando que nem sabe “se esse homem saiu vivo ou morto”.
A situação em Cabo Delgado continua marcada pela desconfiança entre parte da população local e as forças governamentais. O analista Aly Caetano, do Centro para a Democracia e Direitos Humanos, considera que existem problemas estruturais ligados à relação entre o Estado e as comunidades do norte do país, afirmando que muitas forças destacadas para a região “não falam a língua local”, possuem “preconceitos étnicos” e alguns militares chegam mesmo a dizer que “esta guerra não é a minha”.
As autoridades moçambicanas continuam a rejeitar acusações de abusos sistemáticos por parte das FDS. Contudo, organizações internacionais como a Amnistia Internacional já haviam denunciado anteriormente alegadas violações de direitos humanos tanto por grupos insurgentes como por forças estatais destacadas para combater o terrorismo em Cabo Delgado.
O conflito armado no norte de Moçambique começou em 2017 e já provocou milhares de mortos, destruição de infra-estruturas e deslocamento massivo de populações em vários distritos da província.
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Na visão da Voz do Índico, as denúncias revelam uma das dimensões mais delicadas da guerra em Cabo Delgado: a erosão da confiança entre população civil e forças estatais. Em conflitos assimétricos, onde insurgentes operam misturados entre civis, abusos reais ou percepcionados podem aumentar ressentimentos locais e dificultar operações de estabilização. O problema torna-se ainda mais sensível numa província marcada historicamente por pobreza, exclusão e fraca presença institucional do Estado. Sem maior aproximação comunitária, inteligência local e protecção efectiva dos civis, o risco de aprofundamento da instabilidade continuará elevado mesmo com avanços militares no terreno.